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Prefácio |
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O
ESTADO E AS SUAS RESPONSABILIDADES |
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O
PRESIDENTE DA REPÚBLICA NO NOSSO SISTEMA POLÍTICO |
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As
modalidades de intervenção presidencial - teoria e prática |
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As
questões fundamentais da sociedade portuguesa |
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Os
grandes temas da política externa e de defesa |
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A
reforma do sistema político |
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A
separação e interdependência de poderes |
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Por
uma perspectiva constitucionalmente adequada da função presidencial |
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UMAS
FORÇAS ARMADAS RENOVADAS |
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Novas
missões, novas exigências |
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A
reforma das Forças Armadas |
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PORTUGAL,
A EUROPA E O MUNDO |
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Portugal
na Europa |
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A
Europa no mundo |
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Portugal
e Espanha |
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Portugal
no espaço da lusofonia |
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Portugal
no mundo |
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TIMOR: UMA
LONGA CAMINHADA |
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O
Nobel da Paz |
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A
queda de Suharto |
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O
referendo e a violência |
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A
REPÚBLICA E OS SEUS VALORES |
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A POLÍTICA
E AS REFORMAS QUE FALTAM |
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A
clareza das escolhas |
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Uma
reforma de conjunto |
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O CIDADÃO
E OS SERVIÇOS PÚBLICOS |
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Administração
pública, cidadania e democracia |
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Aperfeiçoar,
modernizar, reformar |
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IMPOSTOS E
CIDADANIA |
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Os
paradoxos do nosso sistema fiscal |
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JUSTIÇA E
SEGURANÇA |
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Uma
justiça pronta e eficaz |
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A
DEMOCRACIA E OS SEUS DESAFIOS |
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A QUESTÃO
SOCIAL |
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Pobreza |
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Trabalho
infantil e trabalho clandestino |
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Reinventar
o pacto social |
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Relações
laborais e políticas de repartição |
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A
PRIORIDADE EDUCATIVA |
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Defender
os direitos da criança |
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A
educação como factor de integração |
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Promover
a responsabilidade social face à educação |
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Aprender
ao longo da vida |
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Mudar
a escola |
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Ensino
superior |
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DA CIÊNCIA
À SOCIEDADE DE INFORMAÇÃO |
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Informação
e comunicação |
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Novos
problemas |
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AMBIENTE -
ASSEGURAR O FUTURO NO PRESENTE |
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Prevenir
em vez de remediar |
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Conservação
da natureza |
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Cidadania
ambiental |
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DROGA: UM
PROBLEMA DE TODOS |
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Uma
ameaça à democracia |
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Um
balanço provisório |
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A
NAÇÃO E A SUA IDENTIDADE |
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TERRITÓRIO
E COMUNIDADE NACIONAL |
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O
poder local |
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O
sistema urbano |
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ECONOMIA E
VISÃO DO PAÍS |
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O
sector produtivo |
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Modernizar
e criar valor |
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Qualificar
a nossa produção |
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Globalização
e internacionalização |
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O MUNDO
RURAL: EVITAR A RUPTURA |
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Dois
mundos rurais |
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CULTURA E
AFIRMAÇÃO DE PORTUGAL |
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Descentralização
cultural |
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Desenvolvimento
e mudança |
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Os
deveres do Estado e da sociedade |
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A LÍNGUA
PORTUGUESA |
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A
CPLP |
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Unidade
e pluralismo |
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A
MINHA AMBIÇÃO: PORTUGAL |
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O CAMINHO
FAZ-SE CAMINHANDO |
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Prefácio
Sempre
pensei que fazer política é compreender, avaliar e agir. Compreender e
interpretar a realidade, na sua imensa complexidade e variedade; avaliar e
ajuizar, com fundamento em princípios, critérios e objectivos; agir, decidir e
intervir para mudar o que está mal - o que é injusto, ineficaz ou anacrónico.
Em
política, a compreensão sem acção torna-se estéril; a acção sem compreensão é
agitação inconsequente ou, o que é pior, com consequências nefastas; a
compreensão e a acção sem valores são a negação do que, desde os Gregos, deve
ser a política: visar o bem comum, assegurando o bom governo, a justiça e a
equidade.
A
grande escritora Marguerite Yourcenar, com uma sabedoria alcançada pela larga
meditação da história humana, alertou para os riscos da acção política sem
valores, verberando aqueles que só cuidam em garantir a pontualidade dos
comboios e não querem saber rumo a que destino vão.
Compreensão,
avaliação, acção, a política é também comunicação, pois sem comunicação não há
comunidade, nem pertença, nem partilha, nem mobilização para os grandes
objectivos. Comunicar é falar e ouvir, é debater, é persuadir, é informar e ser
informado.
Sei
que há quem confunda a necessária reflexão sobre os problemas com perda de
tempo, a sua indispensável ponderação com hesitação e adiamento, o escrúpulo e
o cuidado na procura da melhor solução com preciosismo. Sei também haver quem
prefira o que é passageiro, conjuntural, superficial e espectacular ao que é
duradouro, estrutural, profundo e consistente. Esse método nunca me seduziu - e
agora já é tarde para mudar.
Comecei
a minha luta política no movimento estudantil há mais de quarenta anos. Nessa
altura, fazer política no campo em que sempre me ssituei era saber que, antes
de tudo, a luta era moral. Desde então, procurei manter-me fiel a esse início.
Por isso, quando, em 1995, anunciei a minha candidatura à Presidência da
República quis fazê-lo, simbolicamente, na Reitoria da Universidade de Lisboa.
Procurei
sempre, com a minha acção, defender o interesse geral e prestar um serviço à
comunidade. Este entendimento da política leva a que me sinta e me queira
próximo das pessoas, dos seus problemas e dificuldades, dos seus anseios e
expectativas. Dou, por isso, a maior importância ao contacto directo e pessoal.
De repente, há uma palavra que se ouve, um sorriso que aparece, um gesto que
nos é dirigido - e sentimos que não trabalhamos em vão.
Fiz
sempre política por convicção e com convicção. Nunca vi na política a
compensação para frustrações sofridas fora da política, nem procurei fora da
política a compensação para frustrações da política. Estive sempre de corpo
inteiro, quando achei que devia estar - por iniciativa própria ou em resposta a
apelos.
Nunca
tentei pôr-me em bicos de pés, mas também nunca desertei ou fiquei de fora.
Solidário com os outros nas lutas que travámos juntos, procurei dar sempre o
meu melhor àquilo em que acredito. Isso não me impediu, porém, de prezar uma
autonomia de opiniões e de pontos de vista.
Agi
sempre em consciência e de acordo com o que pensei ser a melhor maneira de
afirmar a dignidade da política e o interesse nacional. Assim, decidi ser
candidato à Presidência da Câmara de Lisboa quando ninguém esperava e quando
muiitos achavam que não deveria sê-lo. Penso ter contribuído então para acabar
com velhos tabus, já sem justificação naquela altura.
Apresentei
a minha candidatura ao cargo de Presidente da República antes de ter garantido
qualquer apoio partidário. Creio que se dignifica a actividade política quando
alguém se apresenta perante os seus concidadãos e lhes diz, olhos nos olhos,
que acha poder ser útil à comunidade. Procurei sempre desempenhar os cargos
políticos para que fui eleito com a humildade de quem sabe que a legitimidade
lhe vem dos seus concidadãos, e com o sentido da responsabilidade de quem sabe
que não tem o direito de defraudar a confiança que lhe foi manifestada.
Não
deixo de ouvir, pois, com uma indulgência que só a experiência concede, aqueles
que não entendem que a leitura que faço dos poderes atribuídos pela
Constituição ao Presidente da República e o modo como exerço essas funções não
estão sujeitos a flutuações conjunturais, pois assentam numa concepção
duradoura, profunda e consistente que tenho do cargo e do seu papel no nosso
sistema constitucional.
O
Presidente da República tem um papel arbitral e moderador, deve ser isento e só
a prudência e a contenção, que alguns acharão de tons cinzentos, o habilitam a
desempenhá-lo com a eficácia desejável. Isso não o impede de exercer uma
magistratura de influência e iniciativa. Preferi exercê-la com vista a
mobilizar a sociedade para a resolução dos grandes e verdadeiros problemas que
temos. Disso dão testemunho os vários volumes de Portugueses que fui publicando
no final de cada ano do meu mandato.
O
País necessita de reformas, não necessita de crises políticas artificiais ou
conflitos institucionais. Nestes cinco anos, percorri o território, ouvi as
pessoas, contactei dirigentes políticos, professores e alunos, empresários e
trabalhadores, cientistas, técnicos e gente da cultura. Quis aprofundar uma
leitura do País, actualizada, informada, mais participada, mais prospectiva.
Conheço hoje melhor os Portugueses do que há cinco anos. Tenho procurado
falar-lhes a linguagem do rigor e da verdade, mesmo quando isso vai contra a
corrente dominante. Não me arrependo.
Com
este livro, quero dizer-vos, tendo presentes a nossa história e a nossa
cultura, o que penso do presente e do futuro do nosso país. Estou reconhecido a
todos os que me proporcionaram informações, que me facultaram as suas investigações
e os seus estudos, que partilharam comigo a sua visão dos problemas de Portugal
- os meus colaboradores directos, naturalmente, mas sobretudo muitas pessoas
que recebi, que visitei nas instituições onde trabalham, ou que participaram em
debates em que estive com muito proveito. Tenho por hábito tomar notas e,
nestes casos, foram-me muito úteis e estimularam a minha reflexão.
O
mandato que agora se conclui foi um tempo de grandes mudanças, no mundo e em
Portugal. Procurei reflectir sobre elas. Talvez nos surpreendamos, agora, ao
lançar um olhar retrospectivo ao que aconteceu nestes cinco anos.
Em
entrevista que concedi ao jornal Expresso, em Novembro de 1995, disse que
"a ambição mais relevante, a mais substantiva e a mais emocional" que
tinha era a de "ser o primeiro Presidente português eleito a ir a
Timor-Leste, depois de concluído, e em paz, um processo de autodeterminação
aceite pela sociedade internacional".
Uma
tal afirmação - que, aliás, viria a ser destacada por aquele jornal como título
da entrevista - pareceu a muitos irrealista, um pouco arriscada até. Ela
traduzia um sentimento e um objectivo político e pessoal seguramente partilhado
pela generalidade dos Portugueses, mas porventura irrealizável no horizonte
temporal do mandato de cinco anos do Presidente da República.
O
tempo acelerou, como sabemos. Os Timorenses exerceram o seu direito à
autodeterminação, são hoje um povo livre e em processo internacionalmente
consagrado de transição para a independência, após o referendo de 30 de Agosto
de 1999.
Na
verdade, a questão de Timor veio a conhecer uma evolução extraordinária ao
longo dos últimos cinco anos e atravessou de forma singular o meu mandato,
dadas as intensas responsabilidades institucionais que nessa matéria couberam
ao Presidente da República.
Desde
a oportunidade ímpar para o reconhecimento internacional da causa timorense que
foi a atribuição do Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a Ramos Horta, no final de
1996; passando pela negociação do acordo de Nova Iorque entre Portugal e a
Indonésia, assinado em Maio de 1999 já depois das surpreendentes mudanças
políticas entretanto ocorridas na Indonésia; até à realização da consulta aos
Timorenses, a libertação de Xanana Gusmão e a acção determinada de Portugal no
sentido de levar a comunidade internacional a agir por forma a garantir a
segurança no território, no difícil período que se seguiu à proclamação dos
resultados do referendo pelo Secretário-Geral da ONU - todos vivemos momentos
decisivos e inesquecíveis que marcarão, julgo eu, a memória deste nosso tempo.
Em
12 de Fevereiro passado, pude então visitar oficialmente Timor--Leste e aí
transmitir aos Timorenses, na sua terra, a enorme satisfação de Portugal e dos
Portugueses por essa extraordinária vitória da Liberdade, em que sempre
havíamos acreditado, reafirmando o nosso compromisso de solidariedade para com
a reconstrução do seu país e a formação do Estado timorense. Aquela ambição
maior que havia exprimido, esse sonho que em 1996, quando tomei posse como
Presidente da República, parecia porventura impossível de alcançar no meu
mandato, realizou-se afinal.
Como
o exemplo de Timor evidencia, talvez da forma mais impressiva, este período em
que tive o privilégio de exercer as funções de Presidente da República foi um
tempo de mudanças aceleradas, marcado por um conjunto de experiências e de
acontecimentos de grande significado. Portugal realizou nestes últimos anos
objectivos importantes, no plano nacional e internacional.
A
instituição da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em cuja
Cimeira Constitutiva, realizada em Lisboa, em Julho de 1996, tive a honra de
participar poucos meses após ter assumido funções, representou um marco e um
avanço qualitativo no relacionamento privilegiado que temos com aqueles povos
que connosco partilham uma língua comum e laços particulares de história e de
cultura.
Aprofundámos
a dimensão do relacionamento entre Portugal e o Brasil, país que visitei por
duas vezes em momentos de grande significado. Primeiro em Setembro de 1997,
correspondendo ao convite inédito que me foi dirigido pelo Presidente Fernando
Henrique Cardoso para participar nas cerimónias oficiais do Dia Nacional do
Brasil (comemorativas do 175.º aniversário da sua independência), num gesto
político de grande alcance nas relações entre os dois Estados, e que não
esquecerei. Já em Abril de 2000 voltei a deslocar-me ao Brasil para, em Porto
Seguro, representar Portugal nas comemorações conjuntas dos quinhentos anos da
chegada de Pedro Álvares Cabral.
Portugal valorizou também a sua história ao concluir o processo de transição
cau para a República Popular da China de forma tranquila e com dignidade, como
sempre afirmei ser possível e desejável, e as condições para a preservação dos
elementos essenciais da marca civilizacional que a presença portuguesa de quase
meio milénio deixou em Macau. Isso mesmo me foi testemunhado das três vezes que
visitei o território, a última dos quais para, com Presidente da República
Popular da China, participar nas cerimónias conjuntas que assinalaram o termo
da administração portuguesa, em 19 de Dezembro de 1999.
No
plano europeu, o nosso país assumiu um novo protagonismo e uma maior capacidade
de iniciativa, com reflexos na agenda que o Governo português estabeleceu para
a presidência da União Europeia, que Portugal exerceu, pela segunda vez, no
primeiro semestre de 2000, e que foi reconhecida como muito positiva pela
generalidade dos governos e dos analistas da política europeia.
Portugal
assegurou neste período o cumprimento das metas estabelecidas para a terceira
fase da União Económica e Monetária, alcançando assim o objectivo fundamental
de integrar o chamado núcleo de países fundadores da moeda única europeia, o
euro.
Procurei
intervir de forma activa e permanente, no âmbito das minhas funções, em todos
os domínios em que se joga o sucesso da integração europeia de Portugal e o
fortalecimento da nossa posição na União Europeia. Pude tesstemunhar, no
diáltemunhar, no diálogo que mantive com muitos responsáveis e líderes
políticos europeus, que a nossa experiência democrática e o percurso que
fizemos desde a nossa entrada nas Comunidades Europeias, em 1986, constituem
hoje um exemplo para os Estados candidatos à adesão.
Também
as novas missões desempenhadas pelas Forças Armadas Portuguesas contribuíram
significativamente para credibilizar o papel de Portugal na comunidade
internacional. Na verdade, a participação de contingentes militares e policiais
portugueses em forças internacionais presentes na Bósnia-Herzegovina, que aí
visitei em Junho de 1996, na intervenção na crise do Kosovo em 1999 e, mais
recentemente, em Timor--Leste, onde o nosso contributo é decisivo também no
plano da segurança, constituiu seguramente um dos mais relevantes contributos
dados à política externa de Portugal nos últimos anos.
No
plano internacional, o nosso país terá vivido neste final de século uma das
suas melhores fases de integração, afirmação e capacidade de influência na
comunidade internacional, em resultado do papel activo que desempenhamos nas
organizações a que pertencemos e fruto, sobretudo, da capacidade de iniciativa
que adquirimos na utilização dos instrumentos ao dispor da nossa política
externa.
Creio,
contudo, que a imagem de Portugal no mundo e a imagem que os Portugueses têm de
si próprios é sobretudo, e cada vez mais, a que é construída pela cultura
portuguesa, pela criatividade dos nossos artistas, pela nossa capacidade de
inovação e de interpretação dos factores de modernidade do nosso tempo.
Foi
um período extraordinário de projecção da cultura portuguesa o que vivemos nos
últimos anos. Recordo a participação de Portugal como país-tema na Feira do
Livro de Frankfurt, em 1997, na qual estive ppresente e onde pude verificar o
prestígio e o enorme interesse pela cultura portuguesa, motivado pela qualidade
da nossa Literatura e pelo talento de muitos dos nossos escritores. Isso mesmo
viria mais tarde a obter um novo e mais visível reconhecimento em virtude do
Prémio Nobel da Literatura com que foi singularmente distinguido José Saramago,
em 1998, o primeiro alguma vez atribuído a um autor português.
A
Exposição Mundial de Lisboa foi seguramente também uma das realizações mais
significativas de Portugal neste período, com a qual assinalámos os quinhentos
anos da chegada de Vasco da Gama à Índia, um outro momento único da nossa
história.
A
Expo 98, como afirmei na cerimónia de encerramento da exposição, foi "um
grande acontecimento humano, cultural e científico com uma enorme projecção
internacional, que contribuiu para reforçar a coesão e a identidade nacionais".
Creio que estas palavras continuam actuais e bem verdadeiras. Pela minha parte,
não esquecerei nunca o extraordinário entusiasmo e as múltiplas manifestações
genuínas de auto-estima de tantos e tantos portugueses, particularmente no dia
10 de Junho desse ano, quando, por minha iniciativa, tiveram lugar no próprio
recinto da Expo 98 as comemorações oficiais do Dia de Portugal, de Camões e das
Comunidades Portuguesas.
No
plano interno, o período em que exerci o mandato que agora termina foi
essencialmente um período de estabilidade institucional, um valor essencial em
democracia. Mas estabilidade não significou estagnação, pelo contrário. Estes
anos recentes foram marcados por importantes factores de mudança relativamente
ao funcionamento do sistema político e ao aprofundamento dos instrumentos de
participação democrática, os quais não podemos menosprezar nem perder de vista.
Pela
primeira vez na vigência da Constituição de 1976, o nosso sistema
político-constitucional assegurou condições para que um Governo de maioria
simples cumprisse integralmente o seu mandato, garantido-se a estabilidade
política ao longo dos quatro anos da legislatura. Não foi, é certo, uma
legislatura isenta de problemas - mas que constituíram excepção, não a regra -
sobretudo originados pelo natural confronto que, aqui e ali, se gerou entre o
Governo e uma maioria parlamentar dos partidos da oposição na Assembleia da
República, provocando situações de maior tensão.
Em
democracia, porém, é sempre possível ultrapassar os problemas e, se necessário,
encontrar alternativas. Nalguns casos, a situação política colocou dificuldades
novas, que o sistema constitucional verdadeiramente não tinha ainda conhecido
em termos práticos e que obrigaram, não raras vezes, à intervenção do
Presidente da República quer no plano da chamada magistratura de influência,
exercida para evitar ou resolver conflitos, quer mesmo no plano da garantia da
separação de competências entre o poder legislativo e o poder executivo.
Das
eleições legislativas de Outubro de 1999, como é sabido, veio a resultar uma
nova situação parlamentar, inteiramente inédita, com um número de deputados do
partido que suporta o Governo igual ao do conjunto dos deputados dos partidos
de oposição (115/115).
Foi
aprovada em 1997 a quarta revisão da Constituição da República. Acompanhei os
debates então ocorridos no Parlamento e, naturalmente, no diálogo com os
partidos políticos e os seus principais responsáveis, mantive-me informado
sobre o sentido das suas deliberações. Contudo, fiel ao entendimento que havia
enunciado sobre a questão quando me candidatei a Presidente da República, não
interferi nos trabalhos da revisão constitucional, da exclusiva competência da
Assembleia da República, nem me pronunciei sobre os seus resultados.
Julgo
que teve virtualidades, em especial no que se refere a alguns dos
aperfeiçoamentos introduzidos no sistema político e na criação de novos
instrumentos de participação dos cidadãos na vida política e democrática. Entre
eles importa destacar o reconhecimento aos portugueses residentes no
estrangeiro do direito a votarem na eleição do Presidente da República, com
efeitos já no acto eleitoral que se avizinha.
Foi
na sequência da revisão da Constituição - e, em certa medida, também por mérito
das alterações introduzidas no texto constitucional - que se realizaram, no
período do meu mandato, os primeiros referendos nacionais da nossa democracia.
Sob
proposta da Assembleia da República, convoquei um referendo sobre a
despenalização da interrupção voluntária da gravidez, que decorreu em 28 de
Junho de 1998. Mais tarde, convoquei também o referendo (este
constitucionalmente obrigatório) sobre a instituição em concreto das regiões
administrativas, realizado em 9 de Novembro do mesmo ano.
Um
outro referendo que me foi proposto pela Assembleia da República, que incidia
sobre questões relacionadas com a integração de Portugal na União Europeia, foi
inviabilizado pelo Tribunal Constitucional. Conforme declarei na altura, não o
teria convocado de qualquer modo, porque não resultavam claros os efeitos de
uma eventual resposta negativa às perguntas que então me foram propostas pelo
Parlamento.
A
experiência dos referendos foi inteiramente nova no funcionamento do nosso
sistema democrático. Ao Presidente da República competia garantir perante os
Portugueses a clareza do processo e das escolhas a fazer, e contribuir para
mobilizar os cidadãos para a participação no debate e no próprio acto
referendário. De resto, como em qualquer processo de natureza eleitoral
exigia-se ao Presidente da República isenção e imparcialidade perante as
opiniões em confronto. Foi isso que procurei fazer, e que transmiti aos
Portugueses quer na mensagem que dirigi ao País anunciando a convocação do
primeiro referendo, em 28 de Abril de 1998, quer nas mensagens de apelo ao voto
que fiz nas vésperas de cada uma das consultas realizadas.
Na
primeira daquelas mensagens afirmei: "Todos os processos de referendo
assumem a maior importância em regime democrático, enquanto manifestação, por
excelência, da participação dos cidadãos no exercício do poder político (…).
Mas, no caso presente, quer por se tratar da primeira vez que se recorre, entre
nós, a este procedimento, quer pela delicadeza do tema em questão, há que
convocar a colaboração de todos - cidadãos, partidos políticos e movimentos
cívicos, Governo e oposições - de forma a garantir que a participação dos
eleitores se faça de forma massiva, mas sem fracturas, sempre desnecessárias e
indesejáveis na sociedade portuguesa"
Temos
de reconhecer que, no plano participativo, as experiências que realizámos não
correram bem. Se é certo que, em ambos os referendos, as campanhas e os debates
realizados mobilizaram um conjunto significativo de cidadãos e movimentos
cívicos, já a participação nas consultas registou, como sabemos, as mais baixas
taxas de afluência às urnas na história da nossa democracia.
Como
afirmei no discurso que proferi nas cerimónias do dia 5 de Outubro de 1998, foi
para mim motivo de funda preocupação ver a escassíssima taxa de participação
eleitoral no primeiro referendo que se realizou em Portugal.
Julgo
que o crescimento da abstenção, a par de outros sinais de alheamento dos
cidadãos em relação à vida política, constitui uma ameaça à vitalidade da nossa
democracia, que, de resto, se verifica actualmente na maior parte das
democracias consolidadas. Na análise deste fenómeno, há quem o desvalorize
proclamando que a abstenção é um direito e, como tal, traduz uma atitude que
deve ser respeitada. Há também quem saliente que a abstenção nos actos
eleitorais não é sinónimo de alheamento da vida cívica: o que o fenómeno revela
é, isso sim, uma crescente desadequação dos modelos institucionais tradicionais
e do discurso político, em geral, relativamente às formas de organização social
e aos novos problemas emergentes nas sociedades modernas.
Assumindo
os meus deveres, apontei caminhos para a necessária reforma e modernização das
instituições democráticas e, sobretudo, para lá da actividade institucional que
ao Presidente da República cabe desempenhar, dirigi a minha acção política no
sentido de ir ao encontro dos problemas estruturais do País, de estimular as
energias que existem entre nós, de promover o melhor das nossas capacidades
para enfrentarmos as oportunidades do presente e os desafios do futuro.
Não
avalio o mérito das iniciativas temáticas que realizei ao longo destes cinco
anos em função da maior ou menor visibilidade que, em cada caso, lhes foi dada
pelos órgãos de comunicade comunicacação social, nem tão-pouco na medida do
efeito imediato que tenham tido na conjuntura política de cada momento. Esses
critérios de análise deixo-os para outros.
Os
objectivos que orientaram essas iniciativas do Presidente da República não
foram esses, mas sim, como escrevi recentemente, os de "ajudar a criar uma
nova atitude face aos problemas, a romper bloqueios, a concentrar esforços, a
mobilizar vontades, a fazer ouvir a voz dos que são tantas vezes excluídos,
esquecidos, omitidos, marginalizados", sempre com rigor e sem ceder à
demagogia.
Julgo
que isso foi conseguido, e com eficácia. Faço essa avaliação em função do
conhecimento que tenho das realidades do País, dos progressos verificados, das
mudanças de atitude, das respostas positivas e das iniciativas suscitadas em
muitos domínios pela intervenção do Presidente da República.
Os
Portugueses entendem bem a função própria e insubstituível do Presidente da
República no nosso sistema político e na vida do País em geral. Acredito que
irão mais uma vez valorizar essa função através da participação na próxima
eleição presidencial.
Sobre
todos estes temas, e muitos outros que não cabem já neste prefácio, deixo
algumas reflexões ao longo deste volume. Este livro não é um balanço do meu
mandato. Só aos Portugueses em última análise, compete fazê-lo.
Há
cinco anos, quando me candidatei a Presidente da República, acedi ao desafio
que me foi feito de responder a um conjunto de perguntas, organizadas por áreas
temáticas e formuladas por um conjunto de personalidades do mundo da cultura,
do jornalismo e da política. O resultado desses diálogos destinava-se a ser
reunido num livro a publicar antes das eleições, por forma a que os cidadãos
pudessem dispor desse instrumento de avaliação do pensamento e das propostas do
candidato. Por isso, o desafio me pareceu indeclinável.
O
livro, editado em 1995, chamou-se Um Olhar sobre Portugal e abre com um texto
introdutório, que intitulei "O Presidente da República, vértice do
triângulo constitucional". Condensei nesse texto o essencial das razões
por que me candidatava a Presidente da República, do meu entendimento da função
e dos poderes presidenciais, e dos meus compromissos perante os Portugueses.
Foi com base nas ideias e perante os compromissos que então explicitei com toda
a transparência, que me expus então ao confronto democrático. É em face das
mesmas ideias e compromissos que aceito agora o escrutínio dos Portugueses
sobre a forma como exerci o mandato que me conferiram há cinco anos.
Como
disse, este livro publica-se, agora, com o mesmo objectivo: o de dar a conhecer
aos meus concidadãos aquilo que penso sobre Portugal, a avaliação que faço da
situação do País, os caminhos que entendo deverem ser seguidos no futuro. É
isso que quero dizer-vos.
É, na verdade, um novo olhar sobre Portugal, mas não deixa de ser uma forma de
prestação de contas. Nele deixo apontamentos e reflexões sobre o percurso que
fizemos como Nação ao longo deste últimos cinco anos, dou testemunho da maneira
como esse percurso foi vivido do ponto de vista do Presidente da República e procuro,
por essa via, dar o meu contributo para trazer ao debate eleitoral as questões
que considero as mais relevantes para Portugal.
O ESTADO E AS SUAS RESPONSABILIDADES
O
PRESIDENTE DA REPÚBLICA NO NOSSO SISTEMA POLÍTICO
Não se estranhará que, no início desta reflexão, trate com algum pormenor o
tema do papel do Presidente da República no funcionamento do nosso sistema de
governo. De facto, esse funcionamento assenta em princípios estruturais básicos
cuja incompreensão ou desconhecimento gera a maior confusão no que se refere ao
entendimento da posição relativa do Presidente da República no conjunto do
sistema político. No entanto, uma tal incompreensão é tanto menos justificável
quanto, ao longo de quase três décadas de funcionamento do sistema democrático
e de sucessivas revisões constitucionais, quer a natureza do sistema de governo
português, quer o estatuto constitucional dos diferentes órgãos de exercício de
poder político foram sendo estavelmente configurados.
Numa
visão simplificada, pode dizer-se que aqueles princípios básicos são, de um
lado, a responsabilidade política do Governo perante a Assembleia da República
e, de outro, a existência de um Presidente da República que, fruto da
legitimidade democrática que colhe da eleição directa, universal e a duas
voltas, pode exercer poderes de grande relevância para o funcionamento do
sistema político.
Porém,
ainda que detendo poderes importantes - como o poder de dissolução da
Assembleia da República, o poder de demissão, em circunstâncias precisas, do
Governo, o poder de veto, o da nomeação do Governo e de altas figuras do Estado
ou o poder de suscitar a fiscalização preventiva da constitucionalidade -, o
Presidente da República não governa, não lidera o Governo, não se responsabiliza
pela política que este prossegue nem é eleito com base num programa de governo
que lhe incumbisse cumprir ao longo do mandato.
Estas
são conclusões que, sobretudo após a revisão constitucional de 1982, a qual
tocou sensivelmente nos poderes presidenciais, deveriam hoje ser pacíficas.
Quando se retirou ao Presidente da República, como se fez na altura, o poder de
demitir o Governo por razões de desconfiança ou divergência política, as
consequências no relacionamento institucional entre os dois órgãos são
evidentes e imediatas. Hoje, o Presidente da República não é responsável ou
sequer co-responsável pela política prosseguida pelo Governo nem, no que seria
o reverso da mesma visão errónea, se deve constituir em contraponto da actuação
governativa. A partir do momento em que a responsabilidade do Governo perante o
Presidente da República é, naquele sentido, meramente institucional, só há uma
leitura constitucionalmente adequada do relacionamento entre os órgãos de
soberania e essa é, de resto, a leitura correspondente, não apenas à prática
dos diferentes mandatos presidenciais que se sucederam, mas também à forma como
os Portugueses olham para o seu Presidente da República e ao que dele esperam.
Na
arquitectura constitucional dos poderes, cabe ao Governo governar, à Assembleia
da República controlar e fiscalizar a actuação do Executivo e às oposições
apresentarem alternativas às políticas, ao programa e às soluções governativas
existentes. O Presidente da República não pode nem deve substituir-se ao
Governo ou às oposições; os poderes importantes que a Constituição lhe reserva
devem, antes, ser exercidos para garantir a unidade do Estado, a independência
nacional e o regular funcionamento das instituições democráticas, o que inclui
o equilíbrio e separação dos poderes, a transparência, igualdade e
imparcialidade no exercício do poder político, os direitos fundamentais dos
cidadãos, os direitos das minorias e as possibilidades efectivas de alternância
democrática.
As modalidades de intervenção presidencial - teoria e prática
Uma
leitura constitucionalmente adequada dos poderes presidenciais não pode
fazer-se em abstracto ou sem considerar os factores que moldam conjunturalmente
a realidade política em que o Presidente da República desenvolve a sua intervenção.
De
resto, num sistema constitucional como o nosso, o exercício da função
presidencial é desde logo influenciado, entre outros, por factores atinentes à
relação entre Governo e a Assembleia da República que vier a ser concretamente
instituída pela decisão do eleitorado. Assim, sem que os poderes do Presidente
da República sofram formalmente qualquer transformação, variam substancialmente
o tipo de solicitações e as expectativas relativas à actuação do Presidente da
República consoante, por exemplo, se atravessa uma fase de estabilidade ou
instabilidade política, de progresso social e económico ou de estagnação ou
ameaça de crise, de consenso ou dissenso constitucional e, mais imediatamente,
consoante haja um Governo apoiado numa maioria absoluta ou um Governo
minoritário.
Não
basta, para além disso, ter uma visão prática das possibilidades de exercício
dos poderes constitucionais do Presidente da República para perceber
convenientemente o alcance das funções presidenciais. É que, quando se analisa
a actuação de um Presidente da República como um dos centros de exercício de
poder político, há que ter presente que a marca do exercício da função
presidencial no funcionamento do sistema é tão determinada pela forma como se
utilizam as competências expressamente definidas no texto constitucional, como
pelas consequências do exercício daquilo que tem sido designado como
magistratura de influência, ou seja, pelo desenvolvimento de uma iniciativa e
presença quotidianas na vida política, algumas das vezes pouco visíveis, para
serem eficazes, mas cuja importância real pode ser tão ou mais marcante que o
exercício dos poderes formalmente atribuídos pela Constituição ao Presidente da
República.
Assim,
o grau de intervenção de um Presidente da República e de influência efectiva da
sua actuação serão erroneamente percebidos quando analisados exclusivamente em
função das manifestações institucionalmente formalizadas de exercício dos seus
poderes. Dou um exemplo, para ilustrar o que venho dizendo.
A
certa altura do meu mandato gerou-se um conflito entre a Assembleia da
República e o Governo a propósito da cobrança de portagens na chamada
Auto-Estrada do Oeste. Depois da contestação popular à iniciativa do Governo -
que, entretanto, havia atribuído a concessão da exploração de alguns troços
daquela via em regime de cobrança de portagens e tinha em desenvolvimento um
concurso internacional para o seu prolongamento no mesmo regime -, a Assembleia
da República, com os votos conjugados das várias oposições, aprovou uma lei em
que, para corresponder às reivindicações de não pagamento de portagens por
parte das populações locais, paralisava todo o processo e obrigava o Governo a
revogar as suas decisões anteriores.
Uma
lei deste tipo suscita o magno problema constitucional - relativo à divisão de
poderes - de saber se a Assembleia da República pode aprovar leis com um
qualquer conteúdo, mesmo quando com isso parece invadir o âmbito das funções
que a Constituição atribui ao Governo. Por isso mesmo suscitei, como devia, a
fiscalização preventiva da respectiva constitucionalidade.
No
seguimento de uma jurisprudência controversa - que tem, de resto, merecido a
crítica da generalidade da doutrina constitucional -, o Tribunal Constitucional
não se pronunciou pela inconstitucionalidade, embora alegando que o Governo
poderia sempre, se assim o quisesse, revogar, por sua vez, a lei aprovada pela
Assembleia da República. O conflito ameaçava, dessa forma, eternizar-se em
sucessivas e recíprocas revogações, com todos os perigos que daí decorriam para
a estabilidade e racionalidade do funcionamento do sistema político, mas
também, e sobretudo, com os consequentes prejuízos para os interesses das
populações locais e das empresas envolvidas no projecto. Foi, então, a mediação
que desenvolvi discretamente junto dos vários partidos, instituições e agentes
envolvidos que permitiu à Assembleia da República e ao Governo abandonarem as
posições até aí extremadas e chegarem a uma solução de compromisso.
Nessas
circunstâncias, e porque o equilíbrio funcional do sistema não fora reposto
pelas vias institucionalmente estabelecidas, a solução foi, no fundo,
encontrada através do exercício da referida magistratura de influência. O veto
político que, aparentemente de forma inusitada, decidi fazer apesar de o Tribunal
Constitucional ter proferido uma decisão de não inconstitucionalidade, era,
afinal, o corolário de uma solução de compromisso que, através da mediação
informal do Presidente da República, pudera já envolver os vários agentes
interessados. Assim, o Presidente da República que, à partida, não poderia
fazer mais que suscitar a intervenção do Tribunal Constitucional, pôde, em
defesa do interesse nacional, proporcionar uma solução que não estava
aparentemente comportada nos poderes que a Constituição formalmente lhe
atribui, até porque, se não tivesse havido mediação e acordo prévios, o veto
presidencial seria sempre ultrapassado pela maioria da Assembleia da República.
Exemplos
bem sucedidos, como este, repetiram-se inúmeras vezes ao longo do mandato. Basta
citar, entre muitos, os casos da situação bloqueada e praticamente sem saída a
que chegara a chamada greve self-service dos médicos, do impasse em que haviam
caído as relações entre o Ministro da República e o Presidente do Governo
Regional da Madeira, dos perigos implicados na multiplicação imponderada de
processos de criação parlamentar de novos municípios ou da ameaça que, por
falta da não audição devida das instâncias regionais, impendia sobre a entrada
em vigor, em tempo útil, da Lei das Finanças Locais. Mesmo não tendo aí
qualquer poder constitucional formalmente atribuído, pude, orientado à
prossecução do interesse nacional e da estabilidade política e sem invadir
competências de outros, desenvolver permanentemente uma mediação superadora de
bloqueios e moderadora dos interesses e sensibilidades em conflito.
Assim,
uma leitura de balanço e reflexão sobre o exercício que fiz dos poderes
constitucionais ao longo deste mandato não pode deixar de ter em conta a
importância, por vezes decisiva, de certas formas discretas ou mesmo não
conhecidas de intervenção. Essa perspectiva é tão mais importante quanto esse
tipo de intervenção tende a ser ignorado quer pela boa-fé dos que caem na
tentação juridicista de análise do funcionamento dos sistemas de governo, quer
pela já não tão bem-intencionada tentativa de remeter a função presidencial
para o capítulo das inutilidades por parte dos que nunca se conformaram com a
decisão da nossa Constituição sobre a natureza da função presidencial, e,
tomando os desejos pela realidade, procuram alcançar assim o que nunca
obtiveram através do exercício normal dos poderes constituintes da Assembleia
da República.
As questões fundamentais da sociedade portuguesa
A
diversidade e a multiplicidade de formas e meios de actuação estiveram, penso,
particularmente presentes na minha intervenção quanto aos grandes temas e
questões com que Portugal se defronta nesta transição de século. Se bem que,
entre nós, o Presidente da República não governe nem deva interferir na livre
discussão e competição político-partidária, entendi e entendo, de acordo com a
leitura que faço do seu estatuto constitucional - com base na qual me
apresentei à eleição e que foi sufragada pela escolha popular -, não dever
alhear-me dos sérios problemas sociais que nos afectam e dos grandes temas
políticos e culturais que se colocam ao Estado e à sociedade.
Com efeito, enquanto garante da unidade do Estado e defensor da Constituição que jurou cumprir e fazer cumprir, ao Presidente da República cabe também um importante papel de participação na realização das tarefas fundamentais que a Lei Fundamental incumbe o Estado de prosseguir e realizar, como sejam a promoção do bem-estar e dos direitos sociais, o desenvolvimento económico e social, a protecção do património cultural, do ambiente e dos recursos naturais e a valorização da língua portuguesa. A inibição ou omissão no exercício dessas funções presidenciais de concretização dos fins do Estado - fins que, estando constitucionalmente definidos, naturalmente se