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"Hooligans", e Nada Mais
Por
JOSÉ MANUEL FERNANDES Domingo, 17 de Junho de
2001
Está a tornar-se numa rotina: cada vez que se realiza um encontro
internacional de alto-nível, há distúrbios, as cidades ficam em
estado de sítio, as primeiras páginas dos jornais enchem-se de
fotografias de encapuçados que queimam bandeiras, vandalizam lojas
ou destroem propriedade pública.
Este fim de semana em Gotemburgo não foi diferente. A única coisa
que foi diferente foi que desta vez percebeu-se, de forma mais
transparente, a verdadeira natureza dos que promovem a violência.
Não era uma violência contra a polícia, já que a polícia sueca é
talvez a mais contida do mundo, e voltou a dar provas de autêntico
estoicismo ao limitar ao mínimo dos mínimos o uso da força. Não era
também um protesto, mais um, contra os Estados Unidos, porque o seu
presidente já tinha partido e as bandeiras queimadas foram as da
União Europeia.
Houve violência em Gotemburgo porque - é preciso dizê-lo com toda
a clareza - existe uma nova categoria de "hooligans" que, sob a
diáfana capa de serem "contra a globalização", são na verdade contra
o convívio democrático, ao mesmo tempo que cultivam o desacato com o
mesmo fervor dos adeptos bêbados do futebol.
Tem havido algum pudor em tratar este fenómeno com frontalidade.
Os nostálgicos de Maio de 68 tendem até a ver nestas manifestações
sinais de uma nova ordem contestatária. Ou, em alternativa, tendem a
desculpar os excessos de uma juventude "tão generosa".
É preciso quebrar esta lógica desculpabilizadora ou mesmo
cúmplice. É preciso dizer que estamos perante bandos de
manifestantes profissionais, que andam de cimeira em cimeira a
testar novos métodos de provocar a polícia ou destruir restaurantes
McDonald. É preciso dizer que os métodos que utilizam contaminam e
desvirtuam outras causas legítimas que outros manifestantes
gostariam de poder expressar.
Mas é preciso dizer mais. É necessário dizer que não têm razão.
Que os ideais que defendem são totalitários ou, felizmente,
inaplicáveis. Que quando atacam a globalização atacam-na por motivos
errados, próprios de quem tem privilégios de rico a defender, não de
quem realmente gostaria que os povos mais pobres saíssem da pobreza.
É necessário igualmente dizer que a maior parte destes
"hooligans" nunca teve uma vida que saísse dos limites do egoismo
mais atávico. Se os anarquistas de outros tempos possuiam uma
respeitável ética do trabalho, estes "anarquistas" modernos tem
antes orgulho em viver dos subsídios que lhes são pagos pelo
Estado-social que tanto dizem odiar. E se os dirigentes estudantis
de Maio de 68 eram capazes de mobilizar os seus colegas para uma
greve geral, estes "militantes" de hoje seriam mais depressa
expulsos das escolas por esses mesmos colegas por cheirarem mal.
As cimeiras são uma boa ocasião para que aqueles que não têm voz
se dêem a ouvir. Havia milhares de manifestantes que genuinamente
gostavam de o ter feito em Gotemburgo. Para sua desgraça também eles
foram vítimas deste novo tipo de "hooligans". Esse é mais um motivo
para deixarmos de ser vagamente nostálgicos e condescendentes para
com grupos que apenas desejam aproveitar as liberdades da nossa
civilização para, incivilizadamente, a minarem.
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