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Fernando
Esteves festeves@oindependente.pt Tirei um bocadinho do seu
cérebro
Um médico do Hospital de S. João
(HSJ), do Porto, é acusado por dois colegas de ter
retirado amostras de cérebro de 29 doentes vivos sem
que os próprios soubessem ou lhe tivessem dado
consentimento. As amostras em causa foram recolhidas
no Serviço de Urgência e no Serviço de Cirurgia do HSJ
e destinaram-se à investigação que resultou numa tese
de doutoramento, já apresentada e aprovada na
Faculdade de Medicina do Porto. Neste momento, o caso
está a ser investigado por três organismos diferentes:
Inspecção-Geral da Saúde (IGS), Ordem dos Médicos (OM)
e Hospital de São João. Foi no passado mês de Janeiro
que a “bomba” explodiu em três instituições, ao mesmo
tempo: HSJ, Ministério da Saúde e OM. Num documento
assinado pelo neuroradiologista Nuno Pereira dos
Santos e pelo neurocirurgião Vítor Carolino, a que o
Independente e a TVI tiveram acesso, a metodologia
utilizada na elaboração da tese de doutoramento pelo
neurocirurgião Rui Vaz é duramente criticada. No
centro da polémica está o facto de, alegadamente, Rui
Vaz não ter obtido o “consentimento informado” de
todos os doentes a quem retirou amostras de cérebro.
Uma situação que, a provar-se, contraria totalmente
todas as convenções internacionais existentes sobre
colheita de amostras em seres humanos para
investigação científica e que é matéria punível, quer
nos fóruns profissionais quer criminais.
Segredo de justiça.
Contactado pelo Independente, o cirurgião nega que
tenha agredido qualquer princípio ético na elaboração
da tese. “O meu protocolo foi aceite pela Comissão de
Ética do HSJ e o doutoramento foi aprovado por
unanimidade pelo júri das provas.” Mais pormenores,
como o facto de ter ou não o consentimento escrito dos
doentes em causa, o médico recusa-se a fornecê-los,
argumentando que o caso está em segredo de justiça.
Entretanto, já avançou com uma queixa-crime por
difamação contra os dois acusadores. O Independente
sabe, no entanto, que a argumentação do médico no
inquérito em curso no HSJ foi no sentido de dizer que
os pedaços de cérebro retirados tinham de ser
extraídos do corpo dos doentes de qualquer maneira,
dada a natureza das lesões que apresentavam. Quem não
aceita os argumentos de Rui Vaz é o médico Vítor
Carolino. Que considera que, em muitos dos 29 casos
descritos na tese, não é sequer necessária a remoção
de tecido cerebral. “Há dois tipos de situação neste
trabalho: um diz respeito a lesões traumáticas, outro
à existência de meningiomas benignos (um tipo de tumor
que ataca a membrana que envolve o cérebro)”, diz. “No
caso dos segundos, quase nunca é necessário sequer
tocar no cérebro, uma vez que o tumor é exterior a
ele.” O que aconteceu, sublinha, é que “foi
abusivamente retirada uma amostra com fins
experimentais”. Massa cerebral. No caso dos doentes
traumáticos, Vitor Carolino destaca a impossibilidade
de ter sido obtido o seu consentimento. “Como é que um
doente em coma ou que está sem sentidos pode dizer a
alguém que concorda que lhe arranquem dois centímetros
da sua massa cerebral?”, interroga. Contactado pelo
Independente, o director clínico do HSJ invoca a
figura do “consentimento presumido” para justificar
estas situações. “Imagine que um doente chega a uma
urgência e precisa de ser intervencionado, mas não
sabemos quem ele é, quem são os pais, etc. Vamos
deixar de o operar?” Vitor Carolino responde: “Não se
deixa de operar, mas também não se recolhem amostras
do seu corpo para investigação, uma vez que as
convenções internacionais dizem que tal só poderá
acontecer se implicar uma melhoria no estado de saúde
do doente, o que não me parece ser o caso.” No parecer
da Comissão de Ética, a que o Independente teve
acesso, ao responder à questão “que benefícios
imediatos poderão advir para os doentes pela sua
anuência em participar no estudo?”, Rui Vaz responde:
“Nenhuns.”
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